: Notícias
Notícias | Eventos | Hot Links
.Notícias


O trabalho e a falta de ócio...
Sexta-feira, 3 de fevereiro de 2010
.
Num primeiro e mais essencial sentido trabalho é criação e comunicação humana por excelência. Só o homem trabalha. Só o homem cria. Só o homem estabelece relações com os seus semelhantes e com a natureza através do trabalho... A maioria das pessoas que conhecemos na vida foi mediada por alguma atividade profissional.

A premência do progresso, todavia, potencializou a força das mãos humanas e forjou as máquinas, artefato de clonagem em série sem precedentes na história da humanidade, bem no amanhecer na Revolução Industrial, desvirtuando essa vocação sublime do trabalho. A máquina criou o capitalista ou o capitalista criou a máquina? Coloco apenas o dilema. Fato evidente é que o homem deixou de possuir sua ferramenta de trabalho e passou, apenas, a vender sua força produtiva. Inaugurou-se o tempo da universalização da exploração humana por meio do trabalho.

A etimologia também oferece ao trabalho uma conotação negativa. Trabalho vem do latim “tripalium”, um instrumento de tortura grotesco e cruel. Literalmente, quer dizer “ três paus”, como um tripé, estacado no chão e usado para suplicar escravos e delatores.

A maioria dos comuns dos mortais precisa trabalhar para viver. Exceção indecorosa para os membros das denominadas classes ociosas, que vivem parasitando o explorado trabalho alheio. Não é preciso dizer. Você conhece muito bem as tais classes ociosas.

Tudo na nossa vida é mediado e marcado pelo trabalho. O termo impregnou a cultura ocidental e é usado nos mais diversos sentidos. Por exemplo, a mulher entra em trabalho de parto. O casal que não vai bem deve trabalhar a sua relação. E assim por diante... Descanso para trabalhar. Tiro férias para recuperar as energias para trabalhar. Há pessoas que não conseguem tirar férias por medo de perder o trabalho.

Nosso ócio também está corrompido pelo trabalho e pela mentalidade de medir a vida em termos de produtividade material. Não sabemos o que fazer com o tempo de folga a não ser descansar para trabalhar novamente. Esvaziamos o sentido de nossa vida por causa de nosso apego excessivo ao trabalho, muitas vezes repetitivo, estressante e estéril, como o trabalho de Sísifo, figura da Mitologia Grega, condenado pelos deuses a rolar uma pedra de mármore até o cume de uma montanha, de onde ela desce obrigando-o a iniciar tudo novamente. Trabalho eterno e inútil.

Não sabemos relaxar e aproveitar a vida como uma dádiva. Temos dificuldades de substituir o “ homo faber” , o homem do trabalho, das técnicas, pelo “homo volens” , o homem da vontade, da paixão, do desejo. Aliás, as aspirações mais caras de nossa vida residem na área profissional. Será que isto nos satisfaz inteiramente?

Podemos ir mais longe pensando na qualidade desse ócio que nos falta. Um ócio criativo, quem sabe, tomando emprestadas as palavras do sociólogo italiano, Domenico de Massi. Algo que preencha a vida de forma mais criativa e integradora. Cada uma deve descobrir o seu caminho, sem se deixar massificar. Um “Dolce far niente”!

Gil – Professor



Spa existencial
Sexta-feira, 22 de dezembro de 2009
.
Este ano não vou me encher de promessas para emagrecer. Não ficarei preso à periferia do meu ser. Antes, inaugurarei um spa existencial, um tratamento intensivo de sobriedade espiritual. Tenho muito que emagrecer em minha mentalidade, no modo como lido com a vida. Preciso queimar muita gordura existencial. Coisas tolas que carrego comigo. Talvez um ventre de mágoas e ressentimentos. Tentarei me desintoxicar da imagem distorcida que fiz de mim mesmo e não terei medo de ser feliz.

Esse Spa me ajudará a fugir da glutonaria de comprar inúteis, que em vão tentam preencher meus vazios e as coisas não resolvidas em meu coração. Farei uma viagem de solidariedade. Quem sabe bem perto de casa. Um domingo com os velhinhos esquecidos no asilo, uma palavra de conforto para um amigo doente no hospital. Partirei o pão aos famintos de justiça e atenção. Esquecerei que também tenho forme.

Fugirei dos banquetes pantagruélicos de informações que são despejadas sobre mim a todo momento. Entenderei minha limitação.Tenho apenas cinco sentidos, que, ora ou outra, ficam insensíveis ou sem sentido. Procurarei ser seletivo nesse self-service de mensagens e apelos que invadem minha vida. Contentar-me-ei com minha fragilidade e aceitarei a minha miopia intelectual. Nem darei bolas para as pressões de um tal mercado que exige de mim o que não sou e cria metas ilusórias de fama e sucesso profissional.

Tentarei emagrecer o barulho que invade minha vida. Cultivarei um pouco de silêncio e exercitarei meu espírito, buscando apaixonadamente o amor supremo, a matéria prima que me forjou. Ouvirei o ressonar dos pássaros que dormem, o bater das asas da coruja que caça no clarão da lua e o crepitar do primeiro raio de sol que desperta o botão de rosas de meu jardim. Sentirei o perfume da terra borrifada pelas primeiras gotas do orvalho.

Não terei vários amores, não me embriagarei de paixões. Buscarei um só amor, firme, sincero e verdadeiro, para me afogar no mar abissal da intimidade.

Serei mais sóbrio e não me embriagarei de tantas imagens que assediam minha consciência. Dormirei com os sonhos de construir ninhos na ponta de tantos canhões e erguer estaleiros de vagens numa fileira imensa de fuzis desarmados. Alargarei os beirais de minha utopia para bordar o mundo com aquarelas de paz. Encherei os oceanos de barcos cor de rosa e os levarei a atracar no porto da terra sem males.

Abrirei minha boca para largos sorrisos e convocarei todos para um regime de não mal-dizer. Benditas serão as palavras que sairão de tantas bocas famintas de amor. Proclamarei o ano sabático do perdão de dívidas existenciais. Ninguém mais mendigará amor, afeto ou atenção. Do coração de cada um jorrará uma cachoeira de ternura.

Tratarei minha obesidade espiritual com muitos remédios para o coração. Tomarei pílulas de bom humor e otimismo. Aceitarei meu corpo assim assimétrico, com rugas e marcas que o tempo deixou. Rirei de meus defeitos diante do espelho. Não me enquadrarei em nenhum padrão de beleza e desempenho, convencionados por uma sociedade que idolatra a casca e se perde nos regatos epidérmicos da ambição e do estrelismo. Amarei a penumbra que me esconde dos holofotes da mídia, amarei a sombra da árvores que plantei em meu jardim e me contentarei com o alimento que partilharei em minha cozinha.

Gil – Professor



Refletindo sobre a Ética
Sexta-feira, 14 de dezembro de 2009
.
A instância ética deve inspirar toda a vida humana. É uma palavrinha muito importante que vem da língua grega e, num sentido mais amplo, significa morada humana. Corresponde a uma necessidade profunda de tornar o mundo humano e habitável, um abrigo protetor e estável. No íntimo de cada ser humano, há também o desejo de ter uma vida saudável e equilibrada.

Muitas vezes usamos, equivocadamente, a palavra ética e moral como sinônimas. A palavra moral é de origem latina e significa “costumes”, “hábitos”, o que corresponderia a uma sentido mais superficial da palavra ética. De maneira simples, podemos dizer que a moral seria a vivência concreta dos homens em cada contexto social e, a ética, seria a reflexão sobre tal vivência. A moral é forjada por uma matéria prima que se denomina ética. A ética é universal e a moral particular.

A ética apresenta os princípios que orientam nossa consciência, na busca do efetivamente bom e do bem. Tais princípios se cristalizam na moralidade dos atos humanos. Fazemos perguntas importantes sobre nossas escolhas e o que é ser uma pessoa livre. Para captar em profundidade sua relevância especial em nossa vida, duas dimensões precisam ser integradas. A autonomia e a heteronomia descortinam o horizonte ético de nossa existência.

Autonomia é uma palavra que vem do grego e significa “ a lei, a norma que crio para eu mesmo”, ou “ quem ou o que se governa”. Mais precisamente, refere-se ao desejo de tomarmos as nossas próprias decisões, de sermos senhores de nossas escolhas e de governarmos a nós mesmos. O processo de maturidade humana deve nos conduzir a uma autonomia sadia e integradora. Nesse momento, principalmente, podemos entrar em choque com os nossos pais que, bem intencionados, querem nos ajudar em nossas escolhas, querem que erremos menos e sejamos mais felizes. Com o tempo, se amadurecemos, podemos perceber que o apoio de nossos pais nesse momento pode ser fundamental e não nos tira a autonomia, desde que liberdades de escolhas sejam respeitadas.

Heteronomia é outra palavra que vem da língua grega e significa “ outra lei, norma diversa”. Recebemos um mundo pré-dado que nos obriga à sujeição e à obediência. O Estado nos obriga a cumprir a lei mediante diversas sanções. As organizações impõe seus valores. As sociedades dispõem seus padrões de conduta. Sem perceber, internalizamos as normas e os padrões de conduta. O que aprendemos de nossos pais no processo de socialização primária, o que aprendemos nas escolas e outras instituições no processo de socialização secundária, ensinamos aos nossos filhos. Em outras palavras, a sociedade se aloja dentro de nós, para podermos reproduzi-la. Não há como fugir da heteronomia, pois também a introjetamos.

O que seria então a liberdade humana? Somos livres diante de tantas regras e normas que devemos obedecer? Não há espaço para minha intimidade? De fato, não existe uma liberdade total e absoluta. Nossa liberdade é sempre circunstanciada, “situacionada”, se assim podemos dizer. O melhor conceito que encontro para liberdade será a capacidade que tenho de conviver com o outro. Minha liberdade começa onde começa a liberdade do outro, pois liberdade é encontro, respeito e interação. Não podemos querer colonizar o outro, impondo nossos valores e nossa visão de mundo. Esse é o caminho possível para construirmos uma liberdade autêntica.

Resumindo tudo o que foi apresentado, podemos afirmar que nossas escolhas são balizadas pelo desejo de autonomia e pela consciência das barreiras que toda sociedade nos impõe. Nessa seara construímos nossa liberdade. Há que se buscar um equilíbrio desafiador. A autonomia não pode significar isolamento e egoísmo. Destarte, temos que buscar sempre um espaço para formação e efetividade de uma consciência crítica diante da realidade social. Ela não é unívoca. Podemos fazer escolhas sadias e libertadoras, que nos distanciam dos padrões que a sociedade deseja instituir e que contradizem nossos valores pessoais.

Gil – Professor



Felicidade existe
Sexta-feira, 30 de novembro de 2009
.
Solene senhora Vida . Sei que os anos continuam consumindo sua busca por felicidade, sem jamais descansar. Nunca desistiu de encontrá-la... Mas em quantos descaminhos se perdeu... Por que ainda não serenou? Por que ainda, minha senhora, tergiversa?

Iludiu-se com a utopia química de seus porres múltiplos. Acidentou-se nas viagens alucinógenas que qualquer pó lhe proporcionou. No início era tão excitante, Vida! Mas apareceu um bode que lhe atirou na fossa.

Procurou o mercado! Pensou encontrar felicidade em produtos de mil vitrines. Acomodou-se com a falsa perenização da moda que muda, Vida, sempre... Perdeu-se em mil prestações para possuir o “ carro do ano”, Vida. Iludiu-se, Vida ! . Os compromissos financeiros liquidaram seus sonos e os juros lhe deixaram sem nenhuma jura de afeto.

Decidiu ter o corpo perfeito e sarado! Malhação sara. Cosméticos saram. Bisturi corta e sara. Mas você, vida, ficou mais doente com as toxinas que ingeriu para inchar seus músculos e derreter seu cérebro. Sua face, Vida, o bisturi deformou! Amava suas rugas e os cabelos brancos que não escondiam sua fragilidade.

Há saídas, Vida? Todas as suas vãs tentativas de procurar felicidade lhe lançaram num sono letárgico. Desperte, Vida! Rasgue, quem sabe, o véu de apatia e indiferença. Destrua o seu ensimesmamento. Não se iluda mais... Pessoas alegres nem sempre são felizes, Vida. Felicidade é muito mais além... Combina com serenidade, ética, respeito humano, solidariedade e simplicidade.

Ofereço-lhe um pequeno exemplo, Vida, de felicidade simples. Nunca me esqueci daquele caboclo que encontrei em minhas muitas andanças pela vida, Vida. Contentou-se em me dizer que “ pra vivê carece de tempo e paciença, sem invocá com esse mundão de meu Deus”. Portanto, Vida, não invoque mais com este mundão. Aceite sua condição humana, frágil e limitada. Qualquer tentativa de buscar poder e onipotência, lhe deixará vazia, sem domínio sobre si mesma, sem chão, minha preciosa Vida. Há mistérios, vida. Há perguntas sem respostas e sofrimentos absurdos. Tente, pelo menos, vida, amar as suas próprias demandas e as coisas mal aclaradas de seu coração. Ame, Vida, este misto insondável de luz e escuridão.

Há quanto tempo não reza, Vida? Há quanto tempo não tem tempo para mergulhar no mar abissal da intimidade com o Criador? Tenha tempo para Ele. Converse muito com Ele, sem medir palavras ou procurar fórmulas prontas. A sua nudez e o seu medo serão acolhidos por Ele. Quando estiver pronta, Vida, não fale mais nada e aprenda amar o silêncio de sua proximidade com Ele. Aconchegue-se, Vida. Não há experiência mais intensa que o silêncio despojado diante Dele.

Abra seu coração, Vida. Plante canteiros de caridade e construa jiraus de solidariedade. Abra sua cozinha para os famintos de pão. Tenha muitos amigos. Quem sabe, ensine a escrever quem tem muitas palavras no coração e nunca conseguiu colocar no papel ? Quem sabe, Vida, chegou o momento de visitar os velhinhos esquecidos nos asilos e os doentes perdidos nos hospitais ? Longe de você, preguiçosa Vida, os domingos de muito tédio. Não deixe no papel sua vontade de realizar qualquer projeto de inclusão social. Ponha seus sonhos na palma da mão, Vida.

Depois de um tempo me diga, revigorada Vida, que a sua santa e sonhada felicidade, você encontrou, sem carecer de procurar...

Gil – Professor

 

 

A Filosofia incomoda?
Sexta-feira, 25 de novembro de 2009
.
“Não vale à pena uma vida que não possa ser refletida.” Certamente, era uma das frases utilizadas por Sócrates na Ágora, praça pública de Atenas, instigando seus interlocutores a pensar. Tão contundentes e verdadeiros seus argumentos, tão persuasivas suas afirmações, que incomodou o poder. Fora acusado de corromper a juventude. Pena de morte por envenenamento! Cicuta!

A Filosofia nunca poderá perder esta vocação mais genuína. Instigar, perguntar, não se deixar convencer por palavras bonitas, duvidar dos grandes discursos e das frases muito pomposas. A verdade muitas vezes é obscurecida por discursos demagógicos. Se perder a vocação de incomodar, não é mais filosofia. Vejamos a Filosofia incomodando.

Incomoda nossa consciência que se contentou o com o sono letárgico da ignorância e que hesita em se questionar. Amedronta o inusitado e o inesperado! Prefere-se o lugar comum, o prato feito de idéias! Não há comprometimento.

Incomoda os sistemas políticos que acorrentam os homens com suas ideologias. A Filosofia é sempre desalinhadora. Tergiversa! Avessa aos conluios, aos acordinhos que teimam em manter o poder à custa da miséria humana.

Incomoda as religiões que monopolizam o sagrado e insultam nossa credulidade. Há outras possibilidades de transcendência. Religiões ávidas por muito dinheiro, posses e que promovem a violência e a morte são as maiores catástrofes que a humanidade pode enfrentar.

Incomoda as culturas que sustentam padrões desumanizantes em nome de uma identidade perdida. A Filosofia se propõe a humanizar a própria cultura. Tarefa espinhosa e paradoxal.

Incomoda a ciência com a suas devoção não racional no progresso da humanidade e sua estranha avizinhação com o poder.

Incomoda nossas formas de amar, tão loucas, tão desvairadas e colonizadoras.
Incomoda nossos valores tão interesseiros e utilitários. Quilômetros de distância de qualquer fundamento ético.

Sócrates pagou o preço por sua coerência. Não se curvou ao poder. Amou a verdade até o fim. Segundo Platão, em “Apologia a Sócrates”, teria ele pronunciado as seguintes palavras no final de seu julgamento:

 
“Se imaginais que, matando homens, evitareis que alguém vos repreenda a má vida, estais enganados; essa não é uma forma de libertação, nem é inteiramente eficaz, nem honrosa; esta outra, sim, é a mais honrosa e a mais fácil: em vez de tampar a boca dos outros, preparar-se para ser o melhor possível.”

Como pescador de sabedoria, amo a busca genuína da verdade e da coerência, que me desinstala, me incomoda e ilumina os meandros obscuros de minhas perdidas contradições.

Gil – Professor

 


A mágica da lua e o humano
Sexta-feira, 19 de novembro de 2009
.
Gosto de comparar a vida com a lua, tão forte, tão bonita, brilhando no infinito azul do firmamento. Mas nem sempre é tão intensa. Tem a lua minguante: pequena e de pouco brilho. Parece que encolhe na escuridão da noite. É como a gente! Dói na hora que ficamos pequenos, sofrendo e deprimidos. Não tem saída. Ninguém gosta muito de ser lua minguante.

Há que se gestar o novo. Não posso parar. Como bom mineiro, não posso perder o trem da minha história, o trem de minhas acontecências. Chegou o tempo da lua nova. É preciso ter coragem de encarar as coisas não resolvidas que insistem em transitar em meu coração. Fazer mil planos e colocar-me em marcha. Ânimo renovado para crescer. Lua nova e vida nova ! Depois de tanta dor, vem o consolo e a gente se anima de novo a crescer, tem vontade nova de viver. Depois do arrebol triste do por sol, que anunciou as escuridão das trevas, vem a aurora reluzente, convidando-nos a ficar de pé. Tempo bom e luminoso da lua nova !

De decisão tomada e como muita paciência, chegou o momento de crescer. É a fase da lua crescente, tão forte, com vontade de crescer. Findo o vale de lágrimas. Como se a terra ressequida, árida e crepitada pelo sol, recebesse a bênção da chuva. Cio na terra e no céu. Desse jeito o nosso coração, como a lua crescente que mexe com a tranqüilidade da gente, desinstala, instiga à mudança. Como diz o adágio romano, “ama a cela se queres ser introduzido na adega”.

No fim do ciclo vem a lua cheia, bonita e reluzente no céu. Recompensa pelo esforço despendido, satisfação por ter chegado até o fim. Alegria serena de um dever cumprido, uma etapa vencida.

Quanta gente não chega ao fim e abandona seu caminho. Não luta, não espera, não alcança. Quer a lua cheia, sem passar pela minguante, sem despertar para a vida com a lua nova, sem abandonar suas ilusões e sem aceitar a vida do jeito inusitado como sempre se aconchega....

Se viver é coisa perigosa, como disse Guimarães Rosa, não temerei o risco e nem serei imprudente. Vou aceitar assim mesmo a vida, instável, inconstante como a lua no céu. Viver também é coisa dolorosa, prazerosa, formosa... Como a lua prateando o céu de minhas vivências...

Gil – Professor

 

A Sociologia e eu
Sexta-feira, 9 de novembro de 2009
.
Estudar ciências humanas sempre será um desafio, principalmente para quem se acostumou com uma formação eminentemente tecnicista ou para quem teve sua formação balizada pelos rigores científicos das ciências exatas. O humano é sempre surpreendente. Tergiversa. Não se deixa prender pelas mãos ortodoxas da comunidade científica. Por tal, é mais difícil fazer ciência do fenômeno humano. Todavia, a visão aproximada do real que as ciências humanas oferecem são de suma importância para todos nós. Vejamos o caso da Sociologia.

Estudar Sociologia permite-me por os pés no chão. Permite-me ver de forma mais crítica a realidade e não me contentar com as frases prontas ou as conclusões precipitadas. Estudar Sociologia me faz um cético da mídia, que distorce a verdade, vez que sustentada por interesses econômicos escusos. Dois conceitos são importantes para compreender como a Sociologia me situa no mundo: Macrossociologia e Microssologia.

Macrossologia diz respeito à estrutura social que me envolve e de que maneira sou condicionado pelos grandes sistemas sociais. Meu comportamento em sociedade está condicionado por uma série de elementos institucionais. Por exemplo, ainda hoje sofremos a influência da crise econômica norte-americana. Quanta gente que mora perto de nós perdeu o emprego? Uma questão macrossociológica que mudou a vida de muita gente. Minha própria linguagem também é marcada por condicionamentos do nível macro. Quando me dirijo a uma autoridade, minha linguagem carrega todo um universo social que o papel daquela pessoa representa. Tal universo é compartilhado pelas outras pessoas que convivem na mesma realidade social.

Microssociologia diz respeito ao comportamento individual e de pequenos grupos. Nossas relações interpessoais por mais simples e corriqueiras que sejam são marcadas por elementos sociais. Por mais autêntico que queira ser em minhas decisões pessoais, na maneira como me visto ou me comporto, não há como fugir de um mínimo padrão que a sociedade sutilmente me impõe. Não é preciso que regras básicas de convivência social sejam escritas. Pelo processo de socialização, introjetamos a sociedade e a reproduzimos. Ela está viva dentro de nós. Há expectativas comuns que são compartilhadas pelo mesmo universo social. Nossas uniões formais estabelecidas pelo casamento, por exemplo, carregam necessariamente valores e papéis impostos pela sociedade.

Somos seres sociais e nossa liberdade de escolha estará sempre balizada por condicionamentos sociais. Mesmo assim poderemos ser livres e autênticos. Para tanto, quem sabe necessitemos de Imaginação Sociológica. Quem cunhou esta expressão foi Charles Wright Mills, sociólogo norte-americano, muito conhecido no século passado . Trata-se de uma qualidade de espírito que deve ser cultivada por todos nós. Consigo situar minha história no nível macro e microssociológico? Sou capaz de compreender a relação entre minha biografia pessoal e a história coletiva de meu povo? Tenho consciência que minha vida é marcada pelas organizações da sociedade, desde o primeiro instante da minha vida em uma maternidade? Ou sou um sujeito massificado, padronizado, sem nenhuma capacidade de viver uma existência autêntica? Curvo-me aos modismos vazios da sociedade de consumo, sem saber distinguir mais o que é necessidade e o que é simplesmente desejo? Sou sensível às causas coletivas, à necessidade de participação político-social ou me alieno em meu individualismo? A imaginação sociológica nos oferece condições de responder tais questões.

Precisamos de Imaginação Sociológica para viver em sociedade de forma mais crítica, livre e consciente. Caso contrário, continuaremos sendo simples joguetes das forças do destino, impiedosamente subjugados pelas ideologias e alheios às mudanças que movem o mundo em que ficamos, talvez, estacados.

Gil – Professor

 


Itinerário existencial
Sexta-feira, 9 de novembro de 2009
.
Só Deus é luz para retirar-me das trevas.
Só Deus é sabedoria para exaurir minha ignorância.
Só Deus é perdão para dar-me misericórdia.
Só Deus é silêncio para emudecer minha palavra.
Só Deus é palavra para preencher meu silêncio.
Só Deus é júbilo para alegrar meu coração.
Só Deus é alegria para dar-me contentamento.
Só Deus basta!
Só Deus é fonte para me deixar sedento.
Só Deus é riacho que me leva ao mar.
Só Deus é vento que me veleja.
Só Deus é brisa quando é hora de atracar.
Só Deus é âncora quando me é permitido ficar.
Só Deus é tempestade quando resisto em partir.
Só Deus basta !

Gil – Professor

 

 

Kairós e cronos
Sexta-feira, 30 de outubro de 2009
.
Os gregos tinham uma palavra especial para o tempo . Eles o percebiam de duas maneiras diferentes: além do cronos, o kairós. Não se trata de tempo medido no calendário, tempo que estamos vivendo, a duração efêmera do momento, tempo que passou ou futuro que ansiosamente esperamos... Esse tempo que flui é o cronos. Aliás, trazemos no pulso os grilhões do tempo. Kairós é tempo bom, tempo favorável , tempo especial. Todos vivem o cronos, mas poucos experimentam o kairós, pois isto exige um modo muito especial de habitar o mundo, uma forma diferente de escrever a história.

Fazer da vida um tempo favorável é sempre encontrar motivos especiais para cada amanhecer. É aceitar os desafios da vida como um artista que pinta uma linda paisagem e eterniza no pequeno espaço da tela sua alma, seu modo peculiar e intransferível que ver o mundo. É a arte! Essencialmente kairós!

No kairos, não importa o tempo que passou, mas a eternidade e o valor que damos ao hoje. Meu tempo favorável é o hoje e vou vivê-lo intensamente. Vou tirar dele o máximo que puder de satisfação e alegria, como se fosse um cálice de vinho solenemente bebido num grandioso banquete. A paixão brota no cronos e o amor se eterniza no kairós, como o maior, o mais sublime e o mais belo sentimento que alguém pode experimentar na vida.

Os cristãos chamam de kairós o tempo especial, aquele tempo em que Deus se manifesta a humanidade e derrama prodigiosas bênçãos. Ele dá a cada uma de nós um kairós. Bênçãos e mais bênçãos! Isto pode estar acontecendo agora, bem perto de você! Ou ao seu lado!

Quem ainda não experimentou o kairós, cultive no tempo a esperança... Na tardança daquilo que se espera, construa jardins em seu coração, regue-os com chuvas de bem-dizer e se encante com a beleza que pode brotar de sua intimidade! Não se incomode com canteiros e estâncias de mal dizer que povoam sua vizinhança. Assim não sentirá a sua espera como uma clausura do tempo ou a prisão de um destino... Sempre poderemos recomeçar. Sempre há tempo para um tempo favorável e a chegança de uma graciosa bênção!

Gil – Professor

 

 

Educação e vida
Quarta-feira, 14 de outubro de 2009
.
Minha formação escolar marcou-me profundamente. O começo de tudo há mais de 20 anos.. Tempos diferentes e jeitos diferentes de ensinar. Ainda hoje, quando encontro “ a professorinha que me ensinou o bê-á-bá”, aflora em meu coração boas lembranças. Tenho o maior carinho pelos mestres que marcaram a minha vida. Evocando minhas reminiscências, gostaria de comparar a educação daquele tempo com a educação de hoje. Quem sabe, tirar lições preciosas.

A educação do meu tempo tinha um ranço de autoritarismo, não podemos negar tal verdade. Talvez, fruto da enérgica necessidade de aprender. Éramos muito exigidos e ninguém morreu por conta disso. Aprendíamos! Como aprendíamos! Por outro lado, o respeito e a quase veneração que cultivávamos pela imponente figura do mestre merecem atenção. Mais que professor, era um mestre. Mais que ensinar português ou matemática, inquietava-se em nos preparar para a vida. Impensável, inimaginável, naquele precioso tempo, o desrespeito e a violência que hoje são impingidas ao educador.

A educação na era informacional mudou o papel do educador no processo pedagógico, ao meu julgar. O mundo se descortina totalmente diante da tela do meu computador. Barreiras geográficas e culturais são transpostas pela antevisão instantânea da alteridade. A informação, que antes era quase que um segredo profissional, pode ser garimpada em inúmeras infovias. Acredito que o desafio do educador é transformar esta grande seara de informações em conhecimento. Tal conhecimento que suponho exigir introspecção e reflexão das informações recebidas. Aí o múnus do educador. Selecionar as informações, provocar a reflexão, permitir que a subjetividade do educando transborde.... Aprender e ensinar a construir pontes, restaurar a matriz dialogal do processo pedagógico, e, quem sabe ainda, orientar a práxis. O ciclo não se fecha. É dinâmico! Oferece a possibilidade de retroagir para reparar rotas perdidas da reflexão e projetar novas intervenções.

A imagem da abelha colhendo o néctar das flores para fabricar o mel ajuda a compreender melhor a missão do educador. Na grande seara da globalização, o educador deve ajudar na seleção e colheita do néctar para produzir mel. Bom néctar, bom mel. Boas informações, boa metodologia, boa aprendizagem. Depois que colheu o néctar, a abelha não se esquece do seu odor. É capaz de se orientar novamente para mesma flor onde o colheu o néctar. Se bem informado, se introjetou a mensagem, se utilizou o conhecimento, se multiplicou o conhecimento, consolidado está o processo pedagógico.
Nunca mais esquecerá como produzir mel.

Acredito que a educação tem como destinação principal nos tornar mais sábios. Dar sabor a vida de muita gente e torná-la mais suave e saborosa como o mel. A história assim poderá atingir sua grácil plenitude. Ontem, a sacralidade do mestre; hoje, a copiosíssima seletividade da informação; amanhã, cidadãos mais humanos, mais íntegros e mais felizes.

Gil – Professor


Pérolas da Filosofia
Quinta-feira, 01 de outubro de 2009

Quero compartilhar o pensamento de alguns autores de Filosofia... São verdadeiras pérolas que ainda impressionam. Seus pensamentos conservam o brilho nacarado de uma pérola e nos ajudam a viver melhor. Na compreensão que colho da vida humana, acredito que, ao modificar o modo de pensar, dou o primeiro passo para mudar o coração e ser mais sensato, feliz e “pé-no-chão”. Muito sofrimento e muita dor advêm de uma visão deturpada da realidade.

Albert Camus, grande filósofo, escritor, Prêmio Nobel de Literatura( 1957) com a obra “ O estrangeiro”. Nasceu no dia 07 de novembro de 1913, em Mondovi, Argélia. Sua vida, sua trajetória, seus sofrimentos e desilusões, levaram-o a escrever sobre as contradições e os absurdos da trajetória humana. Camus faleceu no dia 04 de janeiro de 1960, em Paris, vítima de um acidente de automóvel. Ele não iria para Paris de automóvel. Tinha, inclusive, comprado um bilhete para viajar de trem. Foi convencido a viajar de automóvel pelos amigos.

Uma frase simples de nosso filósofo: “ A vida é a soma de todas as suas escolhas”. Vale à pena refletir! Nossas escolhas são auxiliadas pelos eventos que nos cercam. Estes eventos não são bons, nem maus. Nossas escolhas e respostas aos eventos é que são positivas ou negativas. Você tem consciência de que sua vida é apenas o fruto de suas escolhas? Saber escolher... Ter a humildade de pedir ajuda quando nossas escolhas são difíceis... Saber o momento certo de decidir. Um amigo confidenciou-me que decidia as coisas mais importantes de sua vida depois de uma boa noite de sono. Nunca decidia nada de cabeça quente ou depois de uma noite mal dormida.

Estamos chegando a um grande momento de escolha coletiva, expressão maior da democracia que inda engatinha neste país. Você já escolheu seu candidato? Quais critérios adotou? Sua consciência, seu valor como cidadão está à venda? Se somos frutos de nossa escolhas, com certeza, a soma de nossas escolhas faz a vida coletiva. Se escolhermos mal, não reclamemos amanhã. Se vendermos nossa consciência, não nos espantemos, amanhã, quando o patrimônio público for leiloado em plena luz do dia pelos mesmos vendilhões que arremataram sua dignidade por preço vil. Sua escolha? E a soma delas?

Gil – Professor

 

O Trem
Segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Gente, a vida do mineiro tem trem prá todo lado.
O trem pode ficar feio: “ Eta, home, o trem tá feio”.
O trem pode ficar interressante: “ Que trem bonito, sô”.
O trem pode ficar gostoso: “Que trem grande, sô.”
O trem pode ficar macio: “ Hum que trenzim fofo”.
O trem pode ficar complicado: “Não entendi nada desse trem”.
O trem pode ser muito chato: “Esse trem não larga do meu pé”.
Tem inflação no trem: “Que trem caro, sô”.
Muita gente quer matar o trem: “Ainda mato esse trem”.
O trem pode agradar ao paladar: “ Que trem gostoso, me dá um tiquim”.
Tem gente que não gosta do trem.
Tem gente que é tarado pelo trem.
O trem pode irritar os olhos.
Tem tanto mala aí que é um trem.
A gente bota o trem onde quiser.
Ninguém tem nada a ver com o trem da gente.
A gente tem que agüentar tanto trem na vida.
A gente tem que engolir tanto trem.
O mineiro esquece até um trem.
E o que é mesmo esse dando do trem, sô ?
O trem é um trem, uai.
O trem passa todo o dia em Monlevade, chein de trem.
O trem carrega tanto trem bão !
E o bom mineiro não vive sem aquele trem.




A lição da árvore
Segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Havia uma pequena árvore plantada junto a um majestoso carvalho. Pouca luz recebia a arvorezinha. O carvalho tomou seu espaço. Cresceu pouco diante do imenso carvalho, que abrigava em seus galhos ninhos de exuberantes aves. Toda manhã gorjeavam suaves melodias. A arvorezinha revoltou-se pela sua pequenez e insignificância. Mas com o tempo ela se contentou. Tinha água, tinha a sombra e o carvalho a protegia do vento tempestuoso. Conformou-se com sua natureza.

Numa bela manhã de verão, a natureza mudou o rumo dos acontecimentos. O firmamento estremecia pela explosão de fulminantes relâmpagos. Um raio poderoso rasgou o céu e carbonizou o imponente carvalho. O que fazer diante do abandono ? Da falta de sombra e proteção ? O sol poderia torrar suas frágeis folhas . Seu débil caule poderia rachar pela força do vento. Estava perdida, abandonada e sem chão. Vergou-se e caiu em profunda depressão.

Os dias e as noites passavam e a nossa árvore não queria saber de crescer. Havia agora espaço para crescer. Numa bela manhã, triste e deprimida, olhava o brilho de um raio de sol, que se apossou de uma gota de orvalho. Era maravilhoso e multicor, tão diferente de sua vida desamparada. Mas neste instante, não sei movida por qual força que saia de sua intimidade, resolveu se voltar para o sol e se erguer lentamente para a mais poderosa força da natureza. A luz ofuscou-lhe . Mesmo assim ela encarou o fulgor. O vento vergava seu caule, mas ela dançou e se refrescou com o seu sopro. A árvore cresceu e lançou suas raízes no âmago da terra e bebeu sua seiva. Antes, não tinha consciência de si. Agora descobriu que também era um carvalho.

Gil - Professor

 

Sobre o autor
Gilberto Alves Rodrigues é formado em Filosofia e especialista em Gestao Organizacional. Atualmente leciona no curso de Administração das Faculdades Integradas Funcec.


Arquivo do Blog
. O trabalho e a falta de ócio... (03/02/10)
. Spa existencial (22/12/09)
. Refletindo sobre a Ética (14/12/09)
. Felicidade existe (30/11/09)

. A Filosofia incomoda? (25/11/09)
. A Mágica da Lua e o humano (19/11/09)
. A Sociologia e eu (09/11/09)
. Itinerário existencial (09/11/09)
. Kairós e cronos (30/10/09)
. Educação e vida (14/10/09)
. Pérolas da Filosofia (01/10/09)
. O Trem (28/09/09)
. A lição da árvore (28/09/09)


Colabore
"Este blog é uma pequena tentativa de interação com a comunidade acadêmica. Mandem críticas, sugestões, temas para serem desenvolvidos. Gosto muito de escrever. Amo os pequenos fragmentos de minha experiência de vida que compartilho. Além de tudo, a escrita pode ser também um bom remédio... Amplia horizontes, gesta o senso crítico, expressa a grandeza de nossos sentimentos. Pode ter a formosura de um poema ou o conselho de um sábio aforismo. Ajuda a formar convicções e a corrigir rotas perdidas do pensamento.

Aguardo seu e-mail!"

Gil


Contato
. gilmonlevade@gmail.com
.
alvesro12@yahoo.com.br